quarta-feira, 12 de agosto de 2015

AS MULHERES DO BELO MONTE




por José Gonçalves do Nascimento*


Não é possível mensurar, com exatidão, o número de pessoas que dedicaram tempo e vida à construção, administração e defesa da comunidade de Canudos. O que se sabe é que o arraial sertanejo não foi obra apenas de Antônio Conselheiro, e sim resultado de um grande mutirão. Mutirão que envolveu milhares de homens e mulheres, provenientes de todos os rincões do nordeste brasileiro.

Cumpre aqui acentuar o protagonismo feminino no âmbito da sociedade canudense. Longe de restringir-se apenas às atividades religiosas, tal protagonismo estendeu-se também à luta diária do povoado, inclusive tomando parte no confronto armado contra as forças da repressão. A seguir, as mulheres que mais se destacaram no cotidiano da aldeia do Belo Monte.

MARIA DA GUERRA - “Jagunça braba e heroína no fogo do Cocorobó”, como descreve o escritor e folclorista José Aras, de raízes canudenses, Maria da Guerra defendeu bravamente a rua da Caridade, na luta contra a expedição Moreira César, ocasião em que matou muito soldado a foice. Sobrevivente, morreria décadas depois, num acidente automobilístico nas proximidades de Uauá (BA).

BENTA E CARIDADE - Naturais do município baiano de Itapicuru, Benta e Caridade estavam entre as personalidades mais distintas do povoado. A primeira, dentre outras atividades, cuidava da administração do Santuário, morada sagrada de Antônio Conselheiro; a segunda, além do ofício de parteira, ocupava-se também da cura dos enfermos, utilizando-se, para tanto, de suas meizinhas e “garrafadas”. Diariamente, multidões de doentes a ela recorriam em busca de alívio para as suas enfermidades.

TERESA JARDELINA DE ALENCAR - Mulher de Honório Vilanova, Teresa Jardelina de Alencar recebera o apelido de Pimpona devido à sua encantadora formosura. Dantas Barreto a descreveu como “bonita morena de olhos grandes e negros". Foi balconista na loja do cunhado Antônio e defensora aguerrida do arraial, chegando a ser ferida em pleno combate.

MARIA LEANDRA DOS SANTOS - Maria Leandra dos Santos era viúva de Rosendo Maximiliano dos Santos, homem de posse da região de Tucano. No final da guerra, foi levada para a cidade baiana de Alagoinhas, juntamente com outras prisioneiras. Ficou conhecida pelos atos de solidariedade, em favor das suas companheiras de infortúnio, tendo, com isso, despendido grande parte da sua herança.

MARIA RITA - Maria Rita, cognominada virgem das caatingas, era sobrinha de Joaquim Macambira, homem influente na trupe do Conselheiro. Magra, olhos amendoados, maçãs salientes, cabelos lisos e soltos, gozava de agilidade admirável. Durante a peleja, ocupou as posições mais estratégicas, sendo uma das figuras femininas mais respeitadas na comuna conselheirista. Envolveu-se no combate do Tabuleirinhos, lutando corpo a corpo com as forças da República. Atingida por bala inimiga, percorreu longo caminho a pé, até cair sem vida na porta do Santuário.

PROFESSORAS - Destacam-se ainda, no séquito feminino do Conselheiro, os nomes de Maria Francisca de Vasconcelos, Maria Bibiana e Marta Figueira. Eram elas as professoras do arraial, a quem cabia o ensino da criançada. As duas primeiras desapareceram durante o morticínio; a última sobreviveu à catástrofe e passou a residir em Salvador.

Quer debulhando o rosário, quer empunhando o bacamarte, as mulheres do Belo Monte foram incansáveis na luta por uma sociedade mais justa e mais solidária. Em todas as frentes em que estiveram envolvidas, demonstraram coragem e valentia, mantendo-se perseverantes na defesa dos seus ideais.

*Poeta e cronista
jotagoncalves_66@yahoo.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário